segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Este texto foi feito para relembrar um dia especial, durante o qual estive no melhor lugar (que não é um lugar) do mundo: o acalento dos meus amigos.
Hoje eu decidi escrever e me veio a familiar sensação que talvez ocorra a todos aqueles que escrevem (ou já escreveram) sobre algum momento da própria vida, a sensação de viajar pelo espaço-tempo e navegar nas memórias como quem mergulha no vácuo espacial e consegue ver, de olhos fechados, o brilho de todas as estrelas passando, em segundos; e enquanto o faço, sinto um aperto em alguma parte de mim, de pura saudade. Talvez eu fale demais ou escreva demais, mas esse dia é um daqueles dias que pedem para ser escritos, para que não corramos o risco de perder sua essência em algum canto das nossas mortais memórias. 
Eu estava dividindo cigarros com Eli, escorada em Ed Madoc, até onde eu me lembro. Ed Madoc é como eu chamo aqui meu amigo-talismã, eu me escorava nele como que para absorver o máximo que podia dos seus bons agouros, e devo dizer, escorar nele sempre me traz uma enorme paz interior. Pois bem, minha consciência pairava ali e em outras sabe-se-lá-quantas dimensões quando tudo aconteceu, mas eu me lembro de ter pensado umas duas vezes se devia me esforçar pra me recompor ou continuar alta até deus sabe quando. Lembro-me de Noah falando algo sobre ter engolido água com sabão na infância e achado que ia morrer, com o par de olhos claros voltados para mim. Lembro-me de pensar em dois ou três casos pra contar, e esquecê-los logo em seguida.
– Gente... Vocês já tiveram a sensação de estar lá, prestando atenção numa conversa, a pessoa falando normal num segundo e no outro "blablablablablá"? Sempre que eu tomo doce eu sinto isso!
Eu não conseguia parar de rir. Olhava pro Eli e ria, tentando dizer que era como eu estava me sentindo ali, naquele momento.
– Eu tô entendendo tudo o que vocês tão falando, mas de repente tudo o que eu entendo é blablablá. – Respondi a Eli assim que as risadas deram um tempo. Olhamos pro Noah e ele soltou um "blablablá" pra ironizar, e aí éramos dois idiotas rindo até chorar. “Vou mijar nas calças!”, eu disse, com lágrimas de riso nos olhos. 
Surgiu um assunto enquanto eu flutuava noutra dimensão e a voz de Eli me trouxe imediatamente pr'ali de volta:
– Por que vocês dois não atuam agora? 
– Agora? – Nuri riu.
– É.
– Mas atuar o quê?
– Não sei. 
Então Nuri e Noah entraram no que me pareceu um frenesi, ambos recitando poemas como em um diálogo em câmera lenta, transformando versos em maravilhosos atos cênicos. Nós aplaudimos, todos impressionados com a performance, mas nenhum mais do que eu, em minha completa desnoção de tempo. Nuri disse que era um poema de Fernando Pessoa e que ela, Noah e sua professora representaram três dos alter-egos do autor durante a declamação. O segundo, disse ela, era do Manuel Bandeira. 
– Então a apresentação foi sobre a vanguarda modern...– Eu tentei dizer, mas as palavras se perderam no ar (suponho que estavam em outra dimensão, também). 
– Saca só... – Observou Noah – daqui desse ângulo, vocês parecem uma banda de MPB. 
A observação dele pairou sob nossas cabeças por um tempo, depois Nuri, Ed Madoc, eu e Eli, respectivamente, murmuramos palavras de concordância e surpresa. 
– E qual vai ser o nome da nossa banda de MPB? – Quis saber Nuri.
O assunto desviou um pouco e então eu, no auge de minha ebriedade, ousei dizer, no impulso:
– Eu sei como nossa banda vai se chamar.
Todos olharam para mim, curiosos. 
– Como? – Nuri me perguntou.
– Tabacaria. – Respondi-a com os olhos brilhando, ainda muito alta e achando tudo aquilo muito legal. 
– Tabacaria. – Repetiu Nuri, os olhos dela também brilhavam, mas tinha neles um raio de sabedoria que estava fora do alcance do meu transe. 
– É o nome de um poema do Fernando Pessoa! – Contou-me ela.
– Sim... Foi nele que eu pensei quando sugeri, por causa da declamação que você e Noah fizeram. – Eu disse, um pouco corada de vergonha. O que eu não disse foi que, quando ouvi esse poema pela primeira vez cerca de dois anos atrás, me encontrava na sala de aula durante a aula de literatura, anotei o nome do poema em meu caderno e pensei "esse podia ser o nome da minha futura banda".
Lembrei-me disso enquanto o assunto na roda corria e eu pairava sobre infinitas dimensões, a sugestão me pareceu comicamente infantil, mas, para minha surpresa, foi bem aceita por todos. Seguiu-se um ensaio de fotos para nosso futuro álbum fictício. Depois de tirar as fotos, Noah disse:
– Mas se essa banda for rolar mesmo, eu não quero ser o empresário! Quero participar. 
– Claro! – Eu disse a ele. – Você não poderia ficar de fora!
Alguém perguntou quais instrumentos nós tocaríamos, deixando claro que todos iríamos cantar. Obviamente Nuri tocaria seu chello, Ed Madoc disse que tocaria baixo porque sempre quis tocar baixo, eu disse bateria e toquei baquetas invisíveis no ar. Não me lembro o que Eli respondeu, talvez fosse violão. Noah também queria tocar violão, então eu sugeri que houvesse um violão base e outro solo, e todos ficaram felizes. 
Quando voltei pra casa no dia seguinte, voltei realizada, pensando na Tabacaria. Pensei na trilha sonora dos nossos encontros e sorri, sorrio agora enquanto escrevo ao lembrar, provavelmente sorrirei todas as vezes que estiver relendo este texto. De certo minhas palavras não conseguiram capturar a essência daquele dia, mas espero que consigam resgatá-lá dentro de vocês ao lerem-nas. 
Com amor,

Ashley.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Sentou-se na cama. Calçou o tênis. Amarrou os cadarços. Olhou para o despertador (que anunciava onze horas alegremente): o dia dela começava depois de meio-dia. Estava atrasada outra vez. Desceu-as-escadas-subiu-desceu-do-ônibus e lá estava ela novamente, na porta do estabelecimento anti-ideias responsável por aniquilar todo e qualquer traço de criatividade (mas não a dela, não). Ashley se sentou em algum lugar e fugiu para dentro de si mesma, mais precisamente para o cérebro em algum ponto pertinho do subconsciente.
O par de olhos cálidos repousara no quadro branco, o olhar era vazio, indiferente ao mar de palavras escritas e apagadas e ao mar de pessoas burburinhando, balbuciando, interagindo entre duas correntes. Havia uma infinidade de vocabulivros em seu refúgio sob arranha-céus de ideias (idealistas? ideológicos?) ideiológicos, e Ashley plainava, condensada feito nuvens, derretendo-se como leite em uma bizarra poça disforme de um conjunto de tudo o que existe. 

A sirene traz as cores de volta aos olhos de Ashley, que segue rumo a saída misturada ao mar de gente como óleo em água. Quanto tempo durou seu transe? Ninguém sabe e ninguém nota. Seus transes costumam discorrer na atemporalidade de um sonho. Perto da porta, seus olhos se abrem. Sentou-se na cama.
Hoje eu queria escrever. Eu juro que tentei de todas as formas me comunicar, mas sempre que me inclinava em direção à caneta, minhas mãos convulsionavam para o lado oposto; turbilhões de pensamentos que eu não pedia pra pensar inchavam minha cabeça. Abri a boca para dizer alguma coisa, mas ao invés de palavras expeli uma bolha cinzenta. Suspirei, cansada.
Tapei os ouvidos para não ouvir o que estava dentro de mim, olhei para o lado esquerdo e lá havia uma concreta parede branca, excessivamente sólida, instranscendível. O lado direito tinha duas paredes monotonamente idênticas às do lado esquerdo, monotonamente idênticas a todas as paredes do mundo, opacas e cheias de concreto. Neste momento, tomei ciência da verdade terrível: meu deus, estou cercada de realidade!

Olhei para cima, já sem nenhuma esperança. Enchi meus pulmões de ar e senti o vento forte vibrando em minhas cordas vocais, me forçando a abrir a boca num grito. Esperava-se ouvir, ali, um rugido de pânico, mas tudo o que se pôde ver foi um enorme feixe escuro saindo da boca redonda e atravessando o teto, e tudo o que se pôde ouvir foi um chiado de um urro surdo. Meus lábios se retorceram e abriram, como nunca julguei ser capaz, para além do maxilar, a fim de dar passagem ao que quer que estivesse saindo de mim. Caí de costas, sem forças para nada – mal conseguia respirar, que dirá escrever. Então escrevi (ou tentei me convencer de que escrevi), olhei para a tela do computador e subitamente as palavras já estão todas aqui. Boa noite. 
A = Área de seção transversal (m²)
ℓ = comprimento do condutor (m)
ρ = lê-se "rô", resistividade linear (Ω m) I AM A PLAGUE I AM A PLAGUE I AM A PLAGUE I AM A PLAGUE I AM A PLAGUE I AM A PLAGUE I AM A PLAGUE.
De repente, não era mais a tinta da caneta que escrevia. Um resíduo preto viscoso pingou no caderno e a mancha foi se separando, formando o contorno do que parecia ser um rosto. A primeira parte distinguível que se formou foi um olho distorcido, e logo em seguida podia-se observar o outro olho brotando em perfeita assimetria. Riscos deslizavam pela folha e indicavam um nariz achatado, embaixo dele formou-se um anel grotesco que antecedia a boca ridiculamente pequena. 
O contorno se fechou na imitação de um rosto quase circular e, enquanto chuviscava riscos no que deveria ser o cabelo, algo que recendia a um olho de Horus infantilizado surgiu, bem no meio da testa. O terceiro olho marejou-se de preto e as lágrimas residuosas escoavam pela pupila, borrando o que sobrou do papel. Por onde escorria, a gosma lacrimal abria feridas no caderno, feridas que mais... se pareciam... lagartas. PRAGA.

Ela olhou para o caderno uma última vez, abismada com tamanho show de horrores, se perguntando como havia aquilo tudo acontecido. Será que estava ficando louca de vez?  Antes que ela respondesse mentalmente suas perguntas, as duas mãos já eram gosmas lagartinosas. O resíduo viscoso do caderno, ela percebeu com pavor, pingava não do teto, mas de sua própria testa - para ser mais precisa, de seu terceiro olho. Passou a mão no rosto, tomada pelo horror, e descobriu: ela era a praga. 

O MUNDO NÃO FOI FEITO PARA OS LOUCOS


Estive matutando com meus botões durante o banho, enquanto a água caía ligeira nas minhas costas, e entendi, finalmente: o mundo não foi feito para os loucos. O mundo não foi feito para suportar todo esse peso, amigos. O mundo não foi feito para mim, nem para o cadeirante, muito menos para os retirantes que se debatem em paredes brancas acolchoadas. As criaturas defeituosas, as almas vazias, elas não encontram lugar neste vasto mundo que, vejam bem, não foi feito para mim. 
O mundo foi escritos nos conformes de um idealista sádico e um visionário fracassado, eminentes inquilinos! O mundo, ele cobra seu preço; o mundo não suporta o peso da escória, pois seu alicerce é fraco como merda. O mundo não foi feito para os carteiros, para pobres, para gordos (os de forma e os de sentimentos, ambos não cabem nos moldes). 

O mundo não foi feito para os loucos das instituições que andam em semicírculos e gritam invocando a morte, não foi feito para funcionários de lanchonete, garçons, expressionistas, homens sem dedo, anãos, malabaristas, prostitutas. Não, o mundo está aí, nesse patético cômodo retangular que mal cabe você; é só um cubículo, uma repartição entre tantos outros cubículos dentro de uma grande sala. Tentei conter essas palavras porque preciso escrever amanhã num cubículo entre outros cubículos, mas me lembrei: o mundo não foi feito para os loucos.