Hoje eu queria escrever. Eu juro que
tentei de todas as formas me comunicar, mas sempre que me inclinava em direção
à caneta, minhas mãos convulsionavam para o lado oposto; turbilhões de
pensamentos que eu não pedia pra pensar inchavam minha cabeça. Abri a boca para
dizer alguma coisa, mas ao invés de palavras expeli uma bolha cinzenta.
Suspirei, cansada.
Tapei os ouvidos para não ouvir o que
estava dentro de mim, olhei para o lado esquerdo e lá havia uma concreta parede
branca, excessivamente sólida, instranscendível. O lado direito tinha duas
paredes monotonamente idênticas às do lado esquerdo, monotonamente idênticas a
todas as paredes do mundo, opacas e cheias de concreto. Neste momento, tomei
ciência da verdade terrível: meu deus, estou cercada de realidade!
Olhei para cima, já sem nenhuma esperança.
Enchi meus pulmões de ar e senti o vento forte vibrando em minhas cordas
vocais, me forçando a abrir a boca num grito. Esperava-se ouvir, ali, um rugido
de pânico, mas tudo o que se pôde ver foi um enorme feixe escuro saindo da boca
redonda e atravessando o teto, e tudo o que se pôde ouvir foi um chiado de um
urro surdo. Meus lábios se retorceram e abriram, como nunca julguei ser capaz,
para além do maxilar, a fim de dar passagem ao que quer que estivesse saindo de
mim. Caí de costas, sem forças para nada – mal conseguia respirar, que dirá
escrever. Então escrevi (ou tentei me convencer de que escrevi), olhei para a
tela do computador e subitamente as palavras já estão todas aqui. Boa
noite.
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